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Entrevista a Miguel Ángel Cayuela, diretor executivo da Santillana

24-07-2019

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O grupo editorial tem, entre os seus objetivos, o propósito de impulsionar os chamados "sistemas de aprendizagem", um modelo educativo com uma visão integral da escola e do aluno que se tem expandido com êxito na América Latina. Miguel Ángel Cayuela, CEO da Santillana, refere-se a estes sistemas como o futuro da educação.

Pergunta. O Grupo PRISA pôs a Santillana à venda em 2016 e acabou por adquirir os 25% que não estavam na sua posse e passar a controlar 100% da empresa. Como afeta este facto a estratégia da companhia?

Resposta. O funcionamento do dia-a-dia pouco é afetado, mas, a nível corporativo, isso coloca a companhia numa posição diferente: o dono detém 100% da empresa e, por isso, pode tomar decisões próprias que afetem o negócio e definir as estratégias de futuro com mais clareza.

P. A PRISA tem negócios relacionados com os meios de comunicação social e com a educação. Os dois mundos ligam bem?

R.  O que liga bem é o espírito da PRISA. Apesar de se tratar de negócios diferentes com uma clara autonomia, partilham o seu espírito de modernidade, de contributo para a sociedade, de inovação e de responsabilidade. No nosso caso, essa responsabilidade concretiza-se na formação de crianças e jovens competentes que saibam desenvolver-se de forma bem-sucedida numa sociedade cada vez mais exigente e que requer novas competências e capacidades.

P. Quais são as previsões de crescimento da Santillana para este ano?

R.  Pensamos alcançar este ano um crescimento orgânico superior a 10%, com resultados assinaláveis em países tão importantes como o Brasil, Espanha, México e Colômbia.

P.  É possível que, a esse crescimento orgânico, se acrescente o crescimento através da aquisição de empresas concorrentes?

R.  Se surgir alguma oportunidade, não fecharemos a porta, mas teríamos de analisá-la com cuidado.

P. A Santillana já soube aproveitar oportunidades de compra no passado?

R.  A Santillana fez muito poucas aquisições ao longo da sua história, mas creio que deram bom resultado. A mais importante foi a aquisição da Editorial Moderna no Brasil, em 2001. Permitiu-nos entrar nesse mercado, onde temos vindo a desenvolver com muito êxito os sistemas de subscrição, e o seu contributo tem sido fundamental para o crescimento da companhia. Trata-se de um mercado grande, com um setor educativo muito ativo. A mais recente aquisição foi a de Norma, em 2016, uma editorial com sede na Colômbia e presença na Argentina, no Peru, na Colômbia e no México. Em dois anos, conseguimos quadruplicar o seu valor. 

P.  E a companhia tem sabido adaptar-se às mudanças tecnológicas?

R.  Na tecnologia, os processos nunca acabam. Mas a verdade incontestada é que, na região geográfica em que operamos, a companhia tem sido sempre pioneira. Foi pioneira com a introdução da tecnologia de uma forma massiva nos sistemas de aprendizagem na América Latina, ajudando a digitalizar milhares de escolas entre 2011 e 2016, fundamentalmente. Até então, a tecnologia parecia um objetivo em si mesma e, atualmente, sabemos que oferece muitas vantagens, mas que não deve ser o ponto de chegada. Deve ser uma ferramenta que permita que a aprendizagem decorra da melhor maneira possível. Já não falamos de tecnologia entendida como hardware, falamos de tecnologia educativa, de edutech. Há um salto qualitativo e, para nós, é uma área de desenvolvimento importante para a qual foram precisos novos perfis profissionais.

P.  Acha que o livro digital vai acabar com o manual escolar tradicional?

R.  Por si só, o livro digital não é bom nem é mau. O mesmo se aplica ao livro em papel. Tudo tem de fazer parte de um ecossistema cujo objetivo seja fazer com que o aluno aprenda cada vez melhor. Hoje em dia, ambos os formatos convivem na escola com total normalidade. Mas a verdade é que a vitalidade digital dos nossos projetos não para de aumentar e que os nossos produtos são cada vez melhores e, portanto, têm mais usabilidade.

P.  Os sistemas de subscrição são a sua principal aposta para continuar a crescer?

R.  Na América Latina, a Santillana é hoje em dia uma empresa que oferece sistemas de aprendizagem integrais, com modelos de subscrição, como Compartir, UNOi ou Educa. Desenvolvemos estes sistemas em mais de 3000 centros educativos em 15 países e contamos com 1,4 milhões de alunos nas nossas plataformas. Além disso, o ARPU [receita média por aluno] que obtemos com estes sistemas é claramente superior ao do negócio tradicional. Não se trata de vender de maneira desagregada livros digitais, em papel ou outras ferramentas, mas sim de oferecer ecossistemas que procuram obter uma maior consistência na nossa proposta pedagógica e na forma como são implementados nos centros: plataformas LMS que incluem conteúdos, ferramentas de avaliação, assessoria e formação para os professores, tecnologia... A escola é o motor da transformação educativa e acreditamos que esta proposta integral influi diretamente na melhoria educativa dos seus alunos e, por conseguinte, oferece mais valor à escola.

P. Quais são as suas vantagens?

R.  Os sistemas de aprendizagem estão firmemente implementados no Brasil, de onde são originários. E nós exportámo-los para o resto da América Latina. Implicam uma relação mais duradoura com o centro educativo e com os seus docentes, uma vez que se assinam contratos de três ou quatro anos e para todas as disciplinas. Isso permite-nos proporcionar-lhes uma oferta mais personalizada e rica e estabelecer com os centros laços de confiança e compromisso mútuo na evolução da aprendizagem. De certa maneira, tornamo-nos consultores da escola, concebendo com ela planos de melhoria contínua. A nível interno, estes sistemas representaram para a Santillana uma mudança radical na nossa forma de trabalhar e nos perfis de que precisamos.

P. Porque não comercializam esses sistemas em Espanha?

R.  Em Espanha, esta oferta é muito difícil de implementar. Não há um mercado da educação, há 17 mercados, um por cada comunidade autónoma. A diversidade curricular e linguística é grande.

P.  No Brasil, a rival da Santillana, a ARCO, oferece também um modelo educativo de subscrição. A concorrência assusta-o?

R.  Pelo contrário. Oxalá tivéssemos concorrência noutros países americanos também. Para que um mercado mude, é mais fácil se houver muitos jogadores. A concorrência ajuda a estabelecer uma dinâmica de transformação, faz com que tudo se movimente mais rapidamente.

P.  A Comissão Nacional dos Mercados e da Concorrência passou aos editores de manuais escolares de Espanha, entre eles a Santillana, uma multa de mais de 33 milhões de euros, porque considera que o código ético que assinaram impede a livre concorrência. Os editores recorreram. Acha que o recurso será bem-sucedido?

R.  Creio que temos muitíssimos argumentos para que o recurso seja bem-sucedido. Além disso, temos estudos que suportam que o código ético não representou um travão para a concorrência ou alterações nas quotas de mercado.

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